Texto de Orelhas – Modelos

Livro: Enfim... Primavera (2013)
Autor: Willian Couto

Capitu vislumbra dois horizontes: a loucura e um diário.
Este último, sugestão de seu psicanalista: escreva! Arranque esta tristeza de você, e a deixe nas páginas de um diário.
Contrariada, Capitu inicia uma relação de amor e ódio com um livro de atas de 100 páginas, a quem chama de Petrus. E são exatamente 100 páginas que ela possui para tentar se livrar da dor de uma vida marcada pela violência e pela solidão.
Já houve quem disse que o sofrimento é um saco de tijolos, e tudo o que nos resta fazer é largá-lo e seguir nosso caminho mais leves. Mas como fazê-lo sem nos mutilar? Sem nos ferir ainda mais?
Enfim... Primavera conta a saga de Capitu, uma jornalista desesperada por se salvar da loucura, e que descobrirá, junto com Petrus, que somente através do perdão é possível se libertar do ódio.
Willian Couto apresenta uma história de dor, de brutalidade e, inesperadamente, de recomeço. 
E de redenção.

Livro: O Duplo da Terra (2016)
Autora: Jana Lauxen

O avião modelo Boeing 757, que realizava o voo SA452 entre Florianópolis e São Paulo, desapareceu dos radares no dia 13 de setembro de 1989, exatamente às catorze horas e dois minutos de uma tarde bonita e quente, de céu claro, sem nuvens.
Cento e noventa e quatro pessoas estavam a bordo, incluindo a tripulação.
O mais estranho é que a aeronave mal havia decolado no momento de seu sumiço, e aparentemente não caiu em lugar nenhum. Não houve pane e nem explosão, e a torre de controle não recebeu qualquer dado de que houvesse problemas no avião.
Buscas foram realizadas durante semanas, dia e noite, na terra e no mar, mas nada, absolutamente nada foi encontrado. 
Durante 25 anos, o desaparecimento do voo SA452, e de seus 194 passageiros, foi considerado o maior mistério da história da aviação mundial.
Até o dia 13 de setembro de 2014, quando o avião foi finalmente localizado.
Ele reapareceu voando sobre a cidade de Florianópolis precisamente às catorze horas e dois minutos, no exato local onde, duas décadas e meia atrás, desapareceu.
Era uma tarde bonita e quente, de céu claro, sem nuvens.

Livro: A Mão de Celina (2014)
Autor: Jeremias Soares

Você tem medo da morte?
Eis uma pergunta inquietante. Até mesmo por que, de todos os nossos medos, o da morte é o único do qual não conseguimos escapar.
Quem tem medo de altura pode optar por ficar no térreo. Quem tem medo de cachorro pode escolher não ter um. Quem tem medo do escuro pode deixar a luz acesa durante a noite.
Só o medo da morte não oferece saída. Cedo ou tarde, teremos de encará-lo nos olhos e nos render.
Em seu segundo livro, Jeremias Soares confirma o que já desconfiávamos desde O Sobrado da Rua Velha, lançado em 2012: este gaúcho de Canoas sabe contar uma história como poucos.
A Mão de Celina é uma trama bem elaborada sobre um triângulo amoroso no mínimo inusitado: Edu e Jana, e Celina, a ex-namorada morta. De maneira engenhosa e envolvente, Jeremias nos transporta para o universo de seus três protagonistas, nos fazendo conhecê-los, e reconhecê-los, através de detalhes que se revelam cada vez mais surpreendentes – e interligados.
Assim como acontece na vida real, seus destinos se entrelaçam, mostrando que algumas coincidências podem ser mais densas e perigosas do que aparentam.
Se tivesse que escolher uma, das muitas características que admiro em Jeremias Soares, diria que é a maneira simples, porém habilidosa, com a qual imprime realidade em sua narrativa, dosando de maneira exata os ingredientes do enredo para que flua com naturalidade. Não há excessos. Você vive o que lê. Abandonando sua própria identidade, você passa a ser Edu, Jana e Celina.
Além do que, Jeremias manipula com desenvoltura o que muitos não conseguem sequer se aproximar: o medo do leitor.
Sem apelar para descrições mirabolantes e pregar sustos desnecessários, o autor tempera sua história com pitadas precisas de um terror real, nada caricato. Tudo é tão crível e assustadoramente possível, que vez ou outra você até dá uma olhadinha para o lado, jurando que o barulho vindo da cozinha é só o vento encanado. E não importa quantos anos você tem: Jeremias caçoa de nossos medos mais infantis – aqueles que o tempo encobre, mas não destrói jamais.
Como o medo da morte.
O que pode ser mais aterrorizante do que a ideia de desaparecer, de deixar de existir?
Enquanto muitos não voltam para contar, Celina voltou. E sua presença se manifesta em todos os pormenores desta história que, eu garanto, não vai lhe deixar dormir mais cedo.
Pois, independente se você tem medo da morte, ou mente que não tem, só há uma certeza: depois que Celina pousar suas mãos sobre você, a morte terá um novo rosto quando vier lhe assombrar.

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